O corpo masculino como escultura viva em fine art.
Foto de Reginaldo G Martins, fotógrafo Rangler.
Iniciei minha vida acadêmica e profissional voltado para o universo das exatas. Me formei em engenharia, e fui por anos bancário.
Desde jovem apreciava a estética e a beleza fotográfica de clipes da cultura pop e suas construções de glamour e beleza. Ali, sem consciência já estava formando um referencial estético, que me acompanha em toda minha carreira.
Comecei a fotografar a partir das minhas viagens internacionais, onde comecei a experimentar ângulos e capturar paisagens. Paulatinamente fui me entusiasmando com as possibilidades de produzir e registrar o belo. Fui experimentando, testando pesquisando técnicas e afinando minha visão. Senti com o tempo a necessidade de me conectar mais com pessoas, e minha fotografia se voltou para o humano.
Meus primeiros ensaios tinham uma inspiração fashion trabalhando luz texturas poses e usando a cidade de São Paulo como cenários múltiplos de construção de estética, tal como os mestres que admirava e comecei apreciar não mais como leigo, mas como um profissional com referenciais de excelência.
Fotografar pessoas possibilitou uma conexão mais plena com a humanidade dos indivíduos e da minha própria. Algo que em minha vivência profissional era inviável pelas demandas profissionais e as dinâmicas de poder e superficialidade das relações. Embora feliz com com as experiências até então produzidas, sentia o desejo de explorar mais a beleza e a sensualidade dos corpos, de me conectar com eles e de produzir imagens que exprimissem sentimentos, sensações e conceitos que me são caros.
O homoerotismo foi se tornando um tema a medida que voltei minhas lentes para o registro de corpos masculinos que pouco a pouco despiam as roupas e os medos criando uma sinergia entre minha visão estética e o desejo do modelo em expressar os mais diversos sentimentos e a beleza do próprio corpo.
Dar esse passo foi fulcral em minha trajetória não só como artista mas enquanto homem gay que experimentou uma sociedade repleta de medo morte e repressão para pessoas LGBTQIA+.
Busco em minha arte retratar meus modelos com a dignidade e respeito que confiro aos seus corpos e suas individualidades. Atuo de forma profissional apesar de afetivo, pois considero que para expressar a plenitude de um fotografado é fundamental estabelecer uma relação de respeito e cuidado fazendo o retratado se sentir o mais confortável possível, dando vazão a expressividade corporal e a sutileza das emoções contidas em cada um.
Sou fascinado pelo registro do corpo masculino em sua plenitude. Explorando não somente o que a sociedade valoriza como a força, a virilidade, mas também a sutileza, delicadeza e vulnerabilidade de cada indivíduo capturado pela minha lente e sensibilidade.
Nesse sentido meu, trabalho visa provocar desejo, fruição estética através da plasticidade das imagens, instigar, aguçar sentidos e ideias, mas também desconstruir a visão de que o corpo masculino deve ser apenas útil e desprovido de sutileza, delicadeza e vulnerabilidade.
Considero fundamental a discussão e percepção de que homens precisam e devem ter espaço para sentirem e serem acolhidos naquilo que têm de sensível e que tantas vezes é calado pela demanda de um sistema econômico de vida, que privilegia apenas o produto, a força e a conquista não dando espaço devido às dores de homens que precisam cumprir papéis de gênero e de produzirem num mundo capitalista de exploração, que cala o sensível em detrimento do lucro e da produtividade que desumaniza as vivências humanas.
Para produzir os efeitos que busco, utilizo-me das mais diferentes técnicas fotográficas e inspirações nas artes e cultura pop. Minhas principais referências são: pintura barroca, com a utilização estética da luz e sombra; a plasticidade das esculturas clássicas que exaltam as formas do corpo humano; Referências Fotográficas: grandes fotógrafos como Peter Lindbergh com sua estética suave e de te entregar o assunto fotografado o mais natural possível; tenho fascinação pela fotografia de Vincent Peters que trabalha luz e glamour como quase nenhum fotógrafo já o fez; e, por fim, a precisão e utilização de luz dura de Herb Ritts em seus icônicos retratos de celebridades. Faço dessas inspirações a minha mescla de intenções quando fotografo sem imitação, mas com reverência a quem fez do belo seu objeto de trabalho.
Como arremate a tudo isso, edito e projeto livros fotográficos, que dialogam com a literatura, escultura e pintura. Utilizo artistas do cânone como vetores de direção e sentido da organização de sequenciamento e curadoria de imagens produzidas por mim. Crio narrativas visuais compondo livros de arcos narrativos globais e locais através da utilização de texto, delimitando universos de significação através do trinômio texto, imagem e espectador.